segunda-feira, 27 de setembro de 2010

JOSÉ CALASANS E OS ESTUDOS DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO - III

OS USOS DA HERANÇA


O trabalho de José Calasans produziu bons resultados. Em 1958, sob os influxos da administração de Anísio Teixeira no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP, o professor José Antônio Nunes Mendonça publicou, pela Livraria Regina, os resultados da sua pesquisa, A educação em Sergipe. Todavia, o seu discurso está fortemente ancorado nos estudos que Calasans realizara anteriormente. O livro História da Educação em Sergipe, de Maria Thétis Nunes, publicado em 1984, pela Editora Paz e Terra, também toma muito das fontes trabalhadas por Calasans para a sua construção discursiva a respeito dos problemas educacionais da província de Sergipe.
O professor José Antônio Nunes Mendonça ao publicar o seu livro, A educação em Sergipe, inaugurou uma espécie de história de introdução na historiografia educacional sergipana. Usou a história sob a perspectiva do presentismo próprio aos estudos feitos à época, sob inspiração de A cultura brasileira, de Fernando de Azevedo , para construir um quadro interpretativo sob o qual a política educacional em Sergipe não fizera nenhum tipo de avanço antes que o grupo do autor sergipano passasse a intervir no palco da tomada de decisões. Ao utilizar a história dessa maneira, o professor Nunes Mendonça renunciou ao modelo historiográfico que fora legado por Calasans e optou por alguns usos da História que apreendera nos seus contatos com intelectuais como Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo, como se explicita na leitura da correspondência que trocava permanentemente com esses dois importantes estudiosos da educação brasileira. Como já foi demonstrado por vários trabalhos, principalmente


Azevedo traçou um percurso da educação no Brasil. Buscou no período jesuítico sua formação. Apontou na reforma pombalina a destruição do educacional então existente. E considerou o período republicano, principalmente fins da década de 1920, como a era da renovação educacional. Caracterizou os primeiros tempos da educação no Brasil como sendo uma fase literária e elitista. O que, segundo o autor só começou a mudar com a reforma educacional de 1928, ocorrida no Distrito Federal. Este fato teria sido responsável pelo caráter cientificista e democrático da educação no Brasil. Note-se que sua obra defendeu que o grupo ao qual o autor pertencia seria o responsável pela inauguração do verdadeiro ensino no país .


Maria Rita de Almeida Toledo afirma que o trabalho de Fernando de Azevedo pode ser definido principalmente pelo seu caráter histórico, posto que os problemas historiográficos não preocupavam o autor. Todavia, Azevedo estabeleceu os parâmetros delimitadores dos estudos sobre Educação que seriam adotados pelas gerações futuras de pesquisadores.
Não obstante as suas dificuldades historiográficas, Nunes Mendonça mantinha em comum com José Calasans a mesma crença, já referenciada, nas potencialidades civilizatórias da Educação. Os estudos de História da Educação realizados pelo professor Nunes Mendonça trazem a forte marca do esperançoso discurso da Pedagogia, carregado das certezas de um vir-a-ser coerente com os projetos que eram formulados. Daí a ênfase ter sido posta naquilo “que deveria ser a realidade e não naquilo que ela é. Essa ligação também gerou uma tendência em explicar os fenômenos educativos do passado por si mesmos, sem nenhuma relação com outros aspectos da sociedade”. Rigorosamente, a produção de Nunes Mendonça foi menos História da Educação e mais Sociologia, Filosofia e Pedagogia. No seu trabalho a História é um processo contínuo que objetiva um fim previamente definido.
Sob a ótica do rigor historiográfico, Maria Thétis Nunes, certamente recebeu uma formação mais refinada que a de Nunes Mendonça. Por isto, mesmo se distanciando de José Calasans do ponto de vista teórico, ela esteve mais próxima na condição de cultora do uso das fontes. Foi com ela que os pesquisadores de História da Educação em Sergipe assumiram as interpretações de caráter marxista em seus textos, a partir de 1962, com a publicação do livro Ensino secundário e sociedade brasileira . Maria Thétis Nunes, a sua autora, era uma aplicada estagiária do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB, no qual se ligou a intelectuais como Nelson Werneck Sodré e Álvaro Vieira Pinto. Apesar desse primeiro livro encontrar dificuldades para continuar circulando no Brasil sob a ditadura militar a partir de 1964, a autora manteve a sua atividade de pesquisadora, trabalhando sob o viés da teoria marxista tal como concebida pela esquerda isebiana. Em 1984, Thétis Nunes publicou a História da Educação em Sergipe, mantendo a mesma perspectiva teórica e o mesmo rigor metodológico que assumira já no estudo de 1962. Historiadora de profissão, ao tratar da Educação sob a perspectiva isebiana, Thétis assumiu o viés interpretativo que diz ser a História fundamentalmente a história das lutas de classes, licenciando-se para, a partir daí, fazer uma série de operações analíticas, nas quais as evidências que extrai das fontes se prestam a localizar as relações entre burguesia e proletariado. Também para identificar os interesses que as classes dominantes defendem. A maior parte dos seus estudos recebeu a marca do determinismo econômico e subordinou o movimento da história exclusivamente às estruturas e à dinâmica da economia.
Na sua interpretação assumiu também os pressupostos da História monumento que Fernando de Azevedo estabeleceu , sob os quais somente se viabiliza uma política educacional consistente no Brasil depois que o campo foi dominado pela ação dos chamados “Pioneiros da Educação Nova”.


Apoiada nos marcos cronológicos estabelecidos por Fernando de Azevedo, lançou seu olhar sobre a legislação referente à educação no período em foco. Para contextualizar o seu objeto se valeu de fontes secundárias (bibliográficas e manuscritas) a fim de apreender o panorama econômico, base do seu estudo. Entendeu que a educação no Brasil, desde as suas origens, se constituiu num transplante de idéias importadas de outras realidades e que, por isso não se ajustavam ao panorama nacional. Dessa forma, afirmou que o Estado sempre abdicou da responsabilidade sobre o sistema educacional. Apoiando-se em sólida base documental, Thétis Nunes interrogou suas fontes de modo a manter a escrita da história dentro do viés econômico determinista. Sua obra é ponto de referência .


Isso reflete o interesse pelo campo da História da Educação e a importância que passou a ter naquela década a pesquisadora Maria Thétis Nunes. Sozinha, até os dias atuais, e partindo da sua posição no Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe, ela publicou vinte e três trabalhos sobre o tema. Um deles, o seu livro História da Educação em Sergipe, veio se juntar aos trabalhos anteriormente produzidos por José Calasans e Nunes Mendonça, tornando-se referência obrigatória dentre os estudos sergipanos da área.

sábado, 25 de setembro de 2010

JOSÉ CALASANS E OS ESTUDOS DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO - II

Ao estudar a história do Colégio Imaculada Conceição, no município de Capela, instituição dirigida pelas irmãs concepcionistas, Sandra Maria dos Santos registrou alguns embates que ocorreram entre a equipe que José Calasans integrava e as freiras que comandavam aquela instituição escolar. No livro de crônicas do Colégio, as irmãs escreveram que a equipe comandada pelo professor Arício Fortes chegou de surpresa para uma inspeção: além de não ter havido qualquer prévio aviso, era o dia 17 de março de 1938, data na qual ninguém esperava tal visita, pois Aracaju celebrava naquele ocasião o 83o aniversário da mudança da capital: “o fizeram de um modo grosseiro e desdenhoso nos livros do secretário e nos aposentos da casa destinados às alunas internas e externas”. Estes embates e as queixas que deles ficaram registradas devem ser tomados e entendidos no contexto dos conflitos do período e são reveladores da importância do tipo de trabalho que realizava Calasans naquele momento, como bem diz trecho de uma carta enviada por Alceu Amoroso Lima a Gustavo Capanema no dia 19 de março do ano de 1935: “no terreno da educação, é que se está travando a grande batalha moderna das idéias”.
Calasans procurou revestir a sua atuação profissional no Departamento de Educação de um caráter eminentemente técnico, tal como o fizeram outros intelectuais que trabalharam sob as mesmas circunstâncias em diferentes níveis de governo e regiões do Brasil, a exemplo de Lourenço Filho que dirigiu o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – Inep, como Calasans, também defensor de idéias próprias ao movimento da Escola Nova. O professor sergipano defendia as idéias que Alceu Amoroso Lima considerava “naturalista, materialista, imediatista e estatista”, no dizer de Raquel Gandini, em Intelectuais, Estado e Educação.
Inspecionar as escolas foi importante para o Estado Novo, porque a inspeção se colocou para a administração pública como uma tecnologia que possibilitava o controle, a regulamentação, o reconhecimento e a cassação das atividades das escolas e dos professores. A presença de Calasans no Departamento de Educação se colocava sob o contexto das necessidades dessa política que impôs ao Estado de Sergipe o remanejamento e a reorganização da sua rede de escolas, o aparelhamento dos seus órgãos centrais, a admissão e remoção de professores, coisas que ocorreram na segunda metade da década de 30 e durante a primeira metade do decênio seguinte.


A HISTORIOGRAFIA EDUCACIONAL DE CALASANS


Foi na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe que circulou o texto do professor José Calasans, “Ensino público em Aracaju – (1830-1871)” . Trata-se da primeira incursão do autor na área. Depois disso, em 1992, o Governo do Estado de Sergipe publicou, através da Fundação Estadual de Cultura – Fundesc, o livro Aracaju e outros temas sergipanos , no qual estão inclusos dois textos do campo da História da Educação: um sobre livros didáticos e um outro enfocando o trabalho do professor Brício Cardoso e o ensino normal em Sergipe.
Do texto de José Calasans que circulou na edição 1949/51 da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, “Ensino público em Aracaju (1830-1871)”, é possível afirmar ter sido o primeiro estudo de História da Educação em Sergipe que tinha um compromisso com os métodos da História e que buscou entender o processo efetivamente vivido. O rigor metodológico do professor Calasans apontava para a necessidade da construção de uma História da Educação em Aracaju dedicada às instituições educacionais, práticas escolares, movimentos estudantis e outros objetos. Os seus estudos da área são textos fundadores. A partir deles foi periodizada, pela primeira vez, a História da Educação em Aracaju.
O primeiro período que Calasans estabeleceu corresponde aos anos de 1830 a 1855, dando ênfase à mudança da capital da cidade de São Cristóvão para a cidade de Aracaju, fundada no mesmo ano de 1855, e suas implicações na Educação. O segundo período, de 1855 a 1871, faz referência ao ensino masculino, às dificuldades de implantação das cadeiras de Latim, Filosofia e Francês e ao sucesso do ensino feminino. Além de dar importância à figura do professor Brício Cardoso como diretor da Escola Normal, revelando a utilização do método Lancaster ou Monitorial na instituição.
Até agora, seis trabalhos historiográficos voltaram o seu olhar para os estudos de História da Educação em Sergipe realizados por Calasans: o compêndio de Maria Thétis Nunes; um estudo de Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas; um de Cristina Almeida Valença; e, três de Jorge Carvalho do Nascimento, dos quais um deles produzido em parceria com Itamar Freitas. Este último texto, intitulado “A temática da educação na Revista do IHGS”, é revelador da importância de José Calasans como estudioso da História da Educação em Sergipe:


O trabalho de José Calasans é (...) o mais importante dentre os que se especializaram na área, durante a primeira metade do século XX. (...) Nos anos 1940, José Calasans já incorporara o discurso que os historiadores do nosso tempo legaram ao campo da História da Educação. O professor Calasans propõe que a história da educação da cidade de Aracaju seja estudada, levando-se em consideração instituições e práticas escolares. No seu tempo, a maior parte dos textos da área privilegiava as idéias pedagógicas e a organização legislativa dos sistemas de ensino. Inversamente, Calasans analisa e dá sentido ao trabalho de professoras e professores primários e secundários; às práticas do ensino público e do ensino privado; à ação estudantil; às experiências pedagógicas; aos edifícios e aos equipamentos escolares.


O fato de o primeiro estudo de História da Educação em Sergipe do qual efetivamente se pode afirmar que tinha um compromisso com os métodos da História e que buscou entender o processo efetivamente vivido ter sido o inaugural artigo do professor José Calasans, “Ensino público em Aracaju (1830-1871)”, de 1951, é por si mais do que suficiente para revelar a importância deste pesquisador da Educação. A sua crença nas potencialidades civilizatórias educacionais, própria da geração dos brasileiros que foram influenciados pelo movimento da Educação Nova, ao lado do seu rigor historiográfico, são indicadores, quando acrescidos dos argumentos até agora esboçados, da necessidade de que é urgente aos pesquisadores de História da Educação a tarefa de estudar com seriedade e profundidade a contribuição de José Calasans.

JOSÉ CALASANS E OS ESTUDOS DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

A partir da década de 50 do século XX, três importantes pesquisadores contribuíram para com a consolidação do campo de estudos da História da Educação em Sergipe: José Calasans, Nunes Mendonça e Maria Thétis Nunes. Tentar compreender hoje como se configura o quadro dos estudos dessa disciplina em Sergipe é dialogar com esta “Santíssima Trindade” de estudiosos e perceber que alguns elementos interpretativos legados por eles continuam presentes na produção historiográfica educacional dos nossos dias. O propósito deste trabalho é verificar um pouco da atuação desses autores e as diferentes leituras que dela foi feita por seguidores e oponentes e as circunstâncias sob as quais as suas contribuições circularam, principalmente a partir do pioneiro trabalho realizado pelo professor José Calasans.
Em 1951, Calasans publicou o artigo “Ensino público em Aracaju – (1830-1871)” , marco fundador do campo sergipano desse tipo de estudo. No final da mesma década, em 1958, foi publicado pela Livraria Regina o livro do professor Nunes Mendonça, A Educação em Sergipe . Em 1962, como estagiária do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB, Maria Thétis Nunes publicou Ensino secundário e sociedade brasileira e, em 1984, como professora do Departamento de História da Universidade Federal, a História da Educação em Sergipe , a única síntese produzida até hoje sobre o assunto.


O PROFESSOR CALASANS


Ainda são incipientes os estudos que têm se debruçado sobre o trabalho de José Calasans como pesquisador da História da Educação. A sua importância como pesquisador da História do Brasil tem chamado a atenção de muitos estudiosos da historiografia brasileira para a obra deste sergipano que passou a maior parte da sua vida produtiva vivendo na cidade de Salvador, onde se vinculou institucionalmente à Universidade Federal da Bahia, na qual chegou a exercer a função de vice-reitor. A produção baiana de José Calasans despertou muita curiosidade, principalmente nos estudiosos dos episódios que envolvem a guerra de Canudos e a saga de Antônio Conselheiro, tema do qual ele se transformou num dos mais importantes dentre os muitos pesquisadores. Não obstante a sua grande contribuição ao campo da História na UFBA, José Calasans deixou registros da sua marca de pesquisador em Sergipe, antes de mudar-se para a Bahia. Esses registros tem sido objeto da preocupação de poucos pesquisadores, é certo, mas de modo crescente vem merecendo reflexões por parte de estudiosos como Maria Thétis Nunes e Luiz Antonio Barreto. Também digno de registro é o trabalho de Carlos Antônio dos Santos, O Senhor da Velha Guarda: notas acerca do pensamento historiográfico de José Calasans. Trata-se de uma monografia apresentada para conclusão do curso de graduação em História da UFS no ano de 1999, sob a orientação da professora Lenalda Andrade Santos.
Nos últimos tempos, a obra de Calasans encontrou em Itamar Freitas um bom inventariante e analista. Ao encerrar uma série de artigos que publicou no jornal Gazeta de Sergipe sob o título “Diálogos com Calasans”, este autor afirma que buscou “demonstrar o valor do trabalho pioneiro de Calasans, tanto em relação à história da historiografia como no esboço do tipo ideal de escrita da história no início dos anos 1970”. Depois de destacar a vida social, a política e a cultura, o analista aqui citado acrescenta a importância da “atividade historiadora em pelo menos três ‘gêneros’ trabalhados por Calasans: historiografia didática, biografia, e história dos municípios”.
Há um aspecto pouco difundido da vida e da obra de José Calasans: as suas contribuições à Educação em Sergipe, tomadas sob três pontos de vista - o do professor, o do administrador da política educacional e o do pesquisador de História da Educação. A preocupação central deste trabalho diz respeito a sua contribuição como historiador da Educação.
Com toda certeza, todos têm conhecimento do óbvio fato de haver Calasans contribuído como professor, posto que esta foi, ao longo da sua vida, a sua mais importante atividade laboral. Mas, quando se trata de dar conteúdo a este aspecto da sua existência, são quase inexistentes os estudos que nos permitam compreender quem foi o professor Calasans, sob quais padrões intelectuais atuou e de que modo se vinculou institucionalmente. Falo não da sua atividade como docente e pesquisador da Universidade Federal da Bahia, mas sim busco os registros do seu trabalho nas instituições escolares de Sergipe, antes da sua mudança para Salvador. Alguns estudos da área indicam que o professor aqui analisado atuou como docente da Escola Normal Rui Barbosa, em Aracaju, a partir da década de 40 do século XX, mas ainda não deram conta de esclarecer o seu trabalho na congregação daquele centro de formação de professores, o programa que oferecia nas disciplinas que ministrava, os livros que adotava, sua relação com os alunos e outros aspectos da sua prática pedagógica. Os estudiosos do campo até agora centraram as suas atenções, ainda que timidamente, apenas sobre a tese de concurso com a qual ele foi aprovado, em 1942, para a cadeira de História do Brasil e de Sergipe: Aracaju: contribuição à História da capital de Sergipe, trabalho publicado no mesmo ano de 1942 pela Livraria Regina.
Como administrador da política educacional, José Calasans integrou a equipe do professor Arício Fortes, quando este dirigiu o Departamento de Educação do Estado de Sergipe. Ao ocupar tal cargo, o diretor geral Arício Fortes se assessorou do professor José Calasans, que ocupou a função de Assistente Técnico. O professor José de Alencar Cardoso, o Zezinho Cardoso, também integrava o núcleo central do poder no Departamento, na condição de Inspetor Geral do Ensino Primário. Eles três, juntos, faziam de dois em dois meses visitas inspecionadoras, sem prévio aviso, a determinados estabelecimentos de ensino. Os estudos de História da Educação em Sergipe ainda não deram conta de esquadrinhar esse período da história das práticas escolares no Estado. Todavia, alguns trabalhos já forneceram indícios que podem permitir uma melhor compreensão da importância que tinham naquele período as práticas de inspeção escolar.
Como intelectual, Calasans participava de um importante órgão administrativo do Estado, o que impõe a necessidade de realização de estudos que auxiliem a compreender a sua visão, o seu papel e a sua relação com a sociedade e com a Educação. Na sua função de Assistente Técnico do Departamento de Educação, Calasans foi um dos profissionais encarregados de propor e fundamentar técnica e cientificamente a política educacional do Estado Novo em Sergipe. Política que nacionalmente sofria fortes influxos do pensamento de Alceu Amoroso Lima, certamente um dos intelectuais que mais opinou durante a gestão de Gustavo Capanema. Isto não significava uma generalização das formas de pensar e agir de todos os agentes intelectuais que desempenhavam os seus papéis técnicos. Assim, não obstante a intransigente defesa do ensino religioso católico feita por Alceu de Amoroso Lima, não foram poucos os conflitos vividos em Sergipe entre José Calasans e os demais membros da equipe do diretor do Departamento de Educação, Arício Fortes, quando juntos tomaram medidas que desagradaram os interesses das instituições escolares mantidas pela Igreja Católica no Estado.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A REMUNERAÇÃO, OS CONCURSOS E ALGUNS PROFESSORES E PROFESSORAS: ASPECTOS DA PROFISSÃO DOCENTE NA HISTÓRIA DE ARACAJU

A organização do sistema de ensino da nova capital da Província de Sergipe começou em abril de 1855. Naquele ano, em Aracaju, existiam apenas duas Cadeiras de Instrução Primária: uma masculina e outra feminina . Além destas, funcionavam duas Cadeiras de Instrução Secundária: uma de Latim e outra de Filosofia . O Liceu de São Cristóvão foi extinto e a sua Cadeira de Filosofia transferida para Aracaju . Na mesma oportunidade, a cidade ganhou uma Cadeira de Gramática e Língua Latina . A Cadeira de primeiras letras do sexo feminino da vila de Socorro e a Cadeira de primeiras letras do sexo masculino de São Cristóvão foram ambas transferidas para a capital. Além disso, em setembro de 1856, foi criada uma outra Cadeira de primeiras letras para o sexo masculino em Aracaju .
A partir de junho de 1858, o professor Braz Diniz Villas-Boas, já jubilado, assumiu a regência da Cadeira de Latim, ocupando-a até 11 de junho de 1864, quando foi outra vez aposentado . Em julho do mesmo ano de 1864 foram criadas as seguintes Cadeiras de Instrução Secundária: Gramática e Língua Francesa; Gramática e Língua Inglesa; Aritmética, Álgebra e Geometria; Geografia e História; Gramática Filosófica e Análise dos Clássicos; Pedagogia ; Instrução Religiosa; Caligrafia; Noções Gerais de Geometria Plana e Noções sobre Pesos e Medidas do Império . Todos esses cargos deveriam ser providos através de concurso, em exame público prestado perante o presidente da Província. As aulas das novas disciplinas criadas deveriam ser ministradas de segunda a sábado, à exceção dos dias santos e feriados. A Província deveria fornecer as casas e os utensílios necessários às aulas públicas de primeiras letras, enquanto o professor de Pedagogia teria o status de professor de escola normal. No seu programa de trabalho estava prevista uma preleção diária sobre instrução religiosa. Esse mesmo professor deveria inspecionar as aulas de primeiras letras e estimular que os alunos destinados à carreira do magistério atuassem como monitores dos exercícios escolares.
Os futuros professores deveriam fazer estudos complementares de Aritmética, Gramática Filosófica, Geografia e História, Instrução Religiosa, Caligrafia, Noções Gerais de Geometria e Noções sobre Pesos e Medidas do Império. Este programa era exclusivo para os homens. No caso das mulheres que seguiriam a carreira do magistério, era facultado adquirir particularmente o conhecimento das disciplinas “que fazem o objeto do ensino do seu sexo” . Os que pretendiam exercer o magistério elementar, atuando na instrução primária, deveriam realizar os estudos normais complementares durante um período de dois anos.
Todo esse conjunto de providências, prescritas pela Resolução n. 713, de 20 de julho de 1864, tinha dois objetivos: estabelecer uma Escola Normal em Sergipe e extinguir o Liceu Sergipense, que funcionava em São Cristóvão, a antiga capital.
O processo de formação de um sistema de ensino eficaz em Aracaju se ampliou em 1868, com a criação de mais duas Cadeiras do ensino primário: uma do sexo masculino e outra do sexo feminino .
Os professores do ensino primário da Vila de Santo Antônio do Aracaju receberam algumas vantagens, mas tiveram que esperar vinte anos, após a vigência da Resolução 413, de 17 de março de 1855, para gozarem dos mesmos privilégios que eram concedidos aos professores que atuavam na antiga capital da Província, São Cristóvão. Somente em 1875 uma Resolução da Assembléia Provincial concedeu a equiparação . Anteriormente, em 1866, a professora de ensino primário da capital passara a ter os mesmos vencimentos e vantagens do professor do sexo masculino . Para o sexo feminino, mais uma outra Cadeira do ensino primário voltou a ser criada em 1870 . Em 1878, existiam cinco Cadeiras públicas do ensino primário para o sexo feminino, regidas pelas seguintes professoras: Francisca Xavier do Monte Carmelo, no Alto do Pirro; Francina da Glória Muniz Telles, na rua de Japaratuba; Anna Resende Mundim, na Praça da Matriz; Esmeralda Alcina de Barros, na rua de Itabaiana; e, Mathilde d´Oliveira, na casa da Secretaria da Polícia. As cadeiras públicas de ensino primário para o sexo masculino, estavam distribuídas da seguinte maneira: Alexandre José Teixeira, Alto do Pirro; José Avelino de Moraes, na casa da Secretaria da Polícia; e, Cypriano José Pinheiro, na Praça da Matriz .
Durante o último quartel do século XIX, o governo da Província foi pródigo na criação de Cadeiras destinadas ao ensino elementar misto. A criação de tais Cadeiras não significa que meninos e meninas passaram a freqüentar a mesma sala de aula. Na verdade, especificamente misto, era o professor. Essas Cadeiras funcionavam com duas sessões diárias: uma que funcionava das nove às doze horas, destinada aos alunos de um sexo, e outra das duas às cinco horas da tarde, para os alunos do outro sexo .

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A REMUNERAÇÃO, OS CONCURSOS E ALGUNS PROFESSORES E PROFESSORAS: ASPECTOS DA PROFISSÃO DOCENTE NA HISTÓRIA DE ARACAJU

A organização do sistema de ensino da nova capital da Província de Sergipe começou em abril de 1855. Naquele ano, em Aracaju, existiam apenas duas Cadeiras de Instrução Primária: uma masculina e outra feminina . Além destas, funcionavam duas Cadeiras de Instrução Secundária: uma de Latim e outra de Filosofia . O Liceu de São Cristóvão foi extinto e a sua Cadeira de Filosofia transferida para Aracaju . Na mesma oportunidade, a cidade ganhou uma Cadeira de Gramática e Língua Latina . A Cadeira de primeiras letras do sexo feminino da vila de Socorro e a Cadeira de primeiras letras do sexo masculino de São Cristóvão foram ambas transferidas para a capital. Além disso, em setembro de 1856, foi criada uma outra Cadeira de primeiras letras para o sexo masculino em Aracaju .
A partir de junho de 1858, o professor Braz Diniz Villas-Boas, já jubilado, assumiu a regência da Cadeira de Latim, ocupando-a até 11 de junho de 1864, quando foi outra vez aposentado . Em julho do mesmo ano de 1864 foram criadas as seguintes Cadeiras de Instrução Secundária: Gramática e Língua Francesa; Gramática e Língua Inglesa; Aritmética, Álgebra e Geometria; Geografia e História; Gramática Filosófica e Análise dos Clássicos; Pedagogia ; Instrução Religiosa; Caligrafia; Noções Gerais de Geometria Plana e Noções sobre Pesos e Medidas do Império . Todos esses cargos deveriam ser providos através de concurso, em exame público prestado perante o presidente da Província. As aulas das novas disciplinas criadas deveriam ser ministradas de segunda a sábado, à exceção dos dias santos e feriados. A Província deveria fornecer as casas e os utensílios necessários às aulas públicas de primeiras letras, enquanto o professor de Pedagogia teria o status de professor de escola normal. No seu programa de trabalho estava prevista uma preleção diária sobre instrução religiosa. Esse mesmo professor deveria inspecionar as aulas de primeiras letras e estimular que os alunos destinados à carreira do magistério atuassem como monitores dos exercícios escolares.
Os futuros professores deveriam fazer estudos complementares de Aritmética, Gramática Filosófica, Geografia e História, Instrução Religiosa, Caligrafia, Noções Gerais de Geometria e Noções sobre Pesos e Medidas do Império. Este programa era exclusivo para os homens. No caso das mulheres que seguiriam a carreira do magistério, era facultado adquirir particularmente o conhecimento das disciplinas “que fazem o objeto do ensino do seu sexo” . Os que pretendiam exercer o magistério elementar, atuando na instrução primária, deveriam realizar os estudos normais complementares durante um período de dois anos.
Todo esse conjunto de providências, prescritas pela Resolução n. 713, de 20 de julho de 1864, tinha dois objetivos: estabelecer uma Escola Normal em Sergipe e extinguir o Liceu Sergipense, que funcionava em São Cristóvão, a antiga capital.
O processo de formação de um sistema de ensino eficaz em Aracaju se ampliou em 1868, com a criação de mais duas Cadeiras do ensino primário: uma do sexo masculino e outra do sexo feminino .
Os professores do ensino primário da Vila de Santo Antônio do Aracaju receberam algumas vantagens, mas tiveram que esperar vinte anos, após a vigência da Resolução 413, de 17 de março de 1855, para gozarem dos mesmos privilégios que eram concedidos aos professores que atuavam na antiga capital da Província, São Cristóvão. Somente em 1875 uma Resolução da Assembléia Provincial concedeu a equiparação . Anteriormente, em 1866, a professora de ensino primário da capital passara a ter os mesmos vencimentos e vantagens do professor do sexo masculino . Para o sexo feminino, mais uma outra Cadeira do ensino primário voltou a ser criada em 1870 . Em 1878, existiam cinco Cadeiras públicas do ensino primário para o sexo feminino, regidas pelas seguintes professoras: Francisca Xavier do Monte Carmelo, no Alto do Pirro; Francina da Glória Muniz Telles, na rua de Japaratuba; Anna Resende Mundim, na Praça da Matriz; Esmeralda Alcina de Barros, na rua de Itabaiana; e, Mathilde d´Oliveira, na casa da Secretaria da Polícia. As cadeiras públicas de ensino primário para o sexo masculino, estavam distribuídas da seguinte maneira: Alexandre José Teixeira, Alto do Pirro; José Avelino de Moraes, na casa da Secretaria da Polícia; e, Cypriano José Pinheiro, na Praça da Matriz .
Durante o último quartel do século XIX, o governo da Província foi pródigo na criação de Cadeiras destinadas ao ensino elementar misto. A criação de tais Cadeiras não significa que meninos e meninas passaram a freqüentar a mesma sala de aula. Na verdade, especificamente misto, era o professor. Essas Cadeiras funcionavam com duas sessões diárias: uma que funcionava das nove às doze horas, destinada aos alunos de um sexo, e outra das duas às cinco horas da tarde, para os alunos do outro sexo .

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

ALFREDO MONTES E O PRIMEIRO CONCURSO PARA A CADEIRA DE INGLÊS DO ATHENEU SERGIPENSE

Apesar de o Atheneu Sergipense, instalado em 1871, haver realizado o seu primeiro concurso público para o cargo de Lente no ano de 1875, os dois professores que dele participaram e obtiveram aprovação já integravam a sua Congregação: Pedro Oliveira de Andrade, na Cadeira de Geometria, e José João de Araújo Lima, na Cadeira de História Universal. Em 1877, aconteceu pela primeira vez no Atheneu um concurso que admitiu ao cargo de Lente um professor que não pertencia ao seu corpo docente: Alfredo de Siqueira Montes, na Cadeira de Inglês.
Ascendino Ângelo dos Reis, Raphael Archanjo de Moura Mattos e Pedro Oliveira de Andrade integraram a banca examinadora, que decidiu por uma lista de dezessete pontos para que os candidatos pudessem elaborar, num prazo de quinze dias, a tese que, obrigatoriamente, deveria ser apresentada por cada candidato, nos termos definidos pelo Regimento que vigorou a partir do início do mesmo ano de 1877: 1º - Filiação da língua inglesa, suas afinidades e relação com outras línguas; 2º - Dialetos Ingleses; 3º - Índole da língua inglesa em relação à portuguesa, analogias e dessemelhanças; 4º - Estrutura e mecanismo da língua inglesa; 5º - A língua inglesa nos diferentes países de seu desenvolvimento; 6º - Artigos ingleses e seus empregos; 7º - Formas numéricas dos nomes ingleses; 8º - Formas genéricas dos nomes ingleses; 9º - Maneiras de indicar em inglês o complemento restritivo português; 10º - Comparativos e surperlativos ingleses, sua formação; 11º - Modos e tempos verbais, sua formação e seu valor; 12º - Conjugações verbais; 13º - Irregularidades dos verbos; 14º - Pronomes e adjetivos pronominais; 15º - Regência das palavras variáveis; 16º - Regências das palavras invariáveis; 17º - Inglês e inglês americano, suas literaturas e representantes.
A banca examinadora definiu também o ponto para a prova escrita: Versão de um trecho dos clássicos da língua portuguesa para a inglesa, extraído de qualquer obra adaptada pelo programa dos exames gerais, sendo por sorteio tanto a obra como a página.
As provas do concurso foram realizadas durante dois dias consecutivos e tiveram início às dez horas do dia 22 de junho de 1877, no salão nobre da Assembléia Provincial, sob a presidência do diretor da Instrução Pública, Pelino de Carvalho Nobre. Além dos membros da banca examinadora, estavam presentes à sessão os Lentes Antônio Diniz Barretto, Tito Souto, Geminiano Paes Andrade e Brício Cardoso. Dos dois candidatos inscritos, o primeiro a defender a sua tese foi Hormecindo Leite de Mello, acadêmico do quinto ano da Escola de Medicina da Bahia. O seu concorrente era o professor Alfredo de Siqueira Montes, Chefe de Seção da Secretaria do Governo, que fez a sua defesa em seguida. Ambos os candidatos foram argüidos, durante cerca de 40 minutos cada um deles, pelo examinador Ascendino Ângelo dos Reis. Os examinadores Raphael Archanjo de Moura Mattos e Pedro Oliveira de Andrada optaram pela renúncia ao direito que tinham de argüir os candidatos, declarando-se contemplados com a argüição do professor Ascendino. Depois de haver sido suspensa a sessão durante 15 minutos, o professor Moura Mattos fez a leitura de um texto da Seleta a ser traduzido pelos candidatos, iniciando assim a prova escrita, que teve a duração de duas horas, seguida de um debate de 30 minutos, com cada candidato.
As provas do dia começaram pelas apresentações orais dos dois candidatos. O Regimento permitia que os candidatos se argüissem mutuamente, o que provocou um conflito entre ambos. Alfredo Montes acusou Hormecindo Mello de ser uma pessoa sem modos e afirmou não estar disposto a tratar com alguém assim, recusando-se a argüi-lo e permanecendo calado quando foi argüido por este. A polêmica entre ambos serve para demonstrar o acirramento da competição pelo poder político presente nos concursos para a prestigiosa posição de Lente da Congregação do Atheneu Sergipense. Hormecindo Mello era estudante de Medicina na Bahia, enquanto Alfredo Montes exercia já um cargo de muito prestígio na vida política da província de Sergipe: o de chefe de seção da Secretaria de Governo. A Congregação aprovou a este, mesmo tendo ele optado por permanecer em silêncio durante uma etapa das provas e ter o seu oponente respondido a todas as questões e apresentado as suas, conforme determinava o Regimento.
Alfredo Montes foi empossado no cargo de Lente do Atheneu no dia três de julho de 1877, apenas dez dias após o encerramento do concurso, numa solenidade que foi um ato político da maior repercussão e ao qual estiveram presentes o próprio presidente da Província, José Martins Fontes, e o diretor da Instrução Pública, Pelino Francisco de Carvalho Nobre, além de lentes, professores, intelectuais e políticos como Brício Cardoso, Raphael Archanjo de Moura Mattos, Ascendino Ângelo dos Reis, Pedro de Andrada, Geminiano Paes de Azevedo, Antonio Diniz Barreto, Oseas de Oliveira Cardoso, Jesuíno José Gomes, Manuel Francisco d’Oliveira, Severiano Cardoso, José Malhado de Araújo, Simião da Motta, Antonio José, Jason Valladão, Baltasar Viera de Melo, Feliciano Francisco da Rocha, José Honorino de Oliveira, Savino Roiz Cotias, Rodolfo Ramos Fontes, Manoel Mendes da Costa Filho, Manoel dos Passos de Oliveira Telles, Godofredo de Mello Barrêtto do Nascimento e Francisco de Paula Freire, dentre outros.
Alfredo Montes se transformou em um dos mais importantes dentre os lentes do Atheneu Sergipense. Participou das comissões de exames finais de Inglês, Francês, Latim, Português, Geografia e Filosofia e em 1882 foi eleito secretário da Congregação. Após a sua morte, em agosto de 1906, ele recebeu uma homenagem proposta pelos alunos Gentil Tavares da Motta, José da Rocha Teixeira, Paulo da Rocha Teixeira, Clarindo Diniz Gonçalves, Clodomir Silva e Martins de Camacho. Por sugestão desses estudantes, no dia 18 de maio de 1910 foi inaugurado um retrato seu no salão nobre do Atheneu Sergipense, em solenidade que contou com a presença do presidente do Estado de Sergipe, Rodrigues Dória.

sábado, 18 de setembro de 2010

OS PROCESSOS SUCESSÓRIOS DA ESCOLA AGROTÉCNICA FEDERAL DE SÃO CRISTÓVÃO - IV

O nome mais votado da lista foi o do professor Alberto Aciole Bonfim. Alfredo Franco Cabral saiu da eleição em segundo lugar. O terceiro foi Manoel Luiz. O primeiro foi nomeado para dirigir a escola . Porém, três dias após a sua nomeação, a portaria de designação foi tornada sem efeito, em face de gestões realizadas junto ao ministro da Educação pelo senador Lourival Baptista e pelo governador Antônio Carlos Valadares . Com isto, foi publicada uma nova portaria designando para o exercício da função o professor Alfredo Franco Cabral . Alberto Aciole Bonfim recorreu à Justiça Federal contra o ato do ministro e um ano depois foi reintegrado no cargo .
Sgundo o professor Alberto Aciole Bonfim, o episódio não deixou seqüelas na vida da Escola:


Eu consegui, junto com o professor Alfredo, um relacionamento tal que servisse de exemplo aos demais que fazem a instituição. Não poderia continuar sendo uma instituição polarizada - metade briga por Alberto e metade briga por Alfredo ou outra pessoa. Nós achamos por bem que tínhamos de servir de exemplo eu e ele. Tanto é que, oito anos depois, quando eu coloquei meu nome novamente para ser candidato a diretor da Escola, eu tive a satisfação de receber o voto dele como membro do Conselho me apoiando para a direção da Escola .


O professor Alfredo Cabral concorda apenas em parte com a interpretação de Alberto Aciole Bonfim:


Toda eleição sempre fica [ressentimento]. Na hora que vai para a lista e qualquer um pode ser nomeado começa a ter briga, começa a criar aquele ambiente ruim. A Escola ficou dividida em dois grupos: o grupo de Alberto e o grupo de Alfredo. Sempre me dei com ele. Agora, tanto eu como ele, gato e cachorro, era um olhando para a cara do outro meio desconfiado. Quando eu perdi entreguei. Eu olho a escola com uma visão e ele olha de outra. Ele passou esses quatro anos, não teve problemas. Não tenho ressentimento contra ninguém, nem contra ele .


O açodamento da relação entre ambos teria se acentuado em função de uma decisão do diretor Alberto Aciole Bonfim que pareceu injusta à ótica de Alfredo Cabral:


Alberto me deixou chocado. Ele me tirou do aviário e me colocou em bovino. Tudo bem, eu sou veterinário e não posso reclamar. Mas, eu acho que o aluno de aviário perdeu e o aluno de bovino perdeu. Eu já estava com uns dez a doze anos em avicultura e o professor de bovino também já estava com seus dez a doze anos. O de lá tinha que ficar perguntando e eu tinha que ficar perguntando a ele. Eu, em sala de aula, disse isso e ele disse isso. Que íamos nos esforçar ao máximo para não prejudicar eles [os alunos]. Fiz apostilas. Fiz veterinária, não sou burro. Estudei e busquei relembrar. Mas eu também tenho meus pés no chão. Não vou dizer que sou o melhor veterinário de avicultura do país, porque se eu fosse não estaria aqui, eu estaria dando palestras, estaria nos Estados Unidos. A gente tem que sentir até onde pode ir. Foi o meu caso de bovino. Eu disse que ia dar aula, fiz apostila, fiz tudo. Agora, na hora que chegou detalhe técnico, inseminação artificial... Isso tinha quinze a dezoito anos que eu tinha visto na universidade. Aí eu pedia para meu colega me dar um curso. Mas foi dito ao aluno. Não estou dizendo que Alberto está me botando de castigo não, mas eu achei que foi. Um ano depois ele me mudou. Ele achou que especialista em avicultura tem que ficar em avicultura. Isso aí foi uma coisa que não precisava .


Problemas sucessórios idênticos voltariam a ocorrer quatro anos depois, ao final da gestão de Alberto Aciole Bonfim. No processo eleitoral que se instalou Alfredo Cabral concorreu novamente. Foi o primeiro da lista, mas não conseguiu a nomeação. “A professora Cláudia teve dez por cento dos votos e acabou ganhando porque é indicação do ministro. Não interessa voto mesmo” . A gestão da professora Cláudia foi bastante tumultuada do ponto de vista administrativo, levando a Escola a mergulhar numa grave crise.
No final da década de 90, as disputas haviam se acirrado a tal ponto que a Escola estava mergulhada em uma situação muito difícil. Em alguns anos, foi oferecida uma quantidade de vagas maior que o número de candidatos à matrícula nos seus cursos.